A evolução do desenvolvimento do marketing e a
história das embalagens colidem-se em seu tempo. Os mais diversos
tipos de distribuição de produtos exigiram meios específicos para
embalá-los. Hoje, em muitos casos, a embalagem torna-se o “5º P” (Package)
do mix de marketing, no entanto, isso não é ainda uma realidade na
mente de muitos empresários brasileiros.
A linguagem visual da embalagem deve respeitar uma construção
específica, quase distinta para cada tipo de produto que irá conter.
Nos primórdios da história, quando da necessidade de se conter um
produto num tipo específico de embalagem, sua identificação era
feita exclusivamente a partir de sua forma, já que naquela época as
tecnologias ainda não poderiam prover meios para a inclusão de
imagens ou para trabalhar a identidade visual de uma marca como o
fazemos hoje.
Havia duas maneiras de identificar alguns produtos, o vinho e o
azeite, por exemplo, poderiam ser facilmente escolhidos pela forma
do jarro que continha cada produto, da mesma forma, o formato e tipo
de amarração que se fazia num saco poderiam indicar aos comerciantes
de que se tratava o conteúdo.
Podemos considerar que este método contribuiu enormemente para a
evolução de o que hoje temos como embalagens, já que seu formato ou
método de acondicionamento ainda possui poder para definir uma
linguagem visual eficaz. É através do design que podemos identificar
o conteúdo de alguns produtos como, um champagne, um refrigerante,
uma água, um perfume, comparativamente a qualidade de um alimento
como, por exemplo, uma sardinha e um atum, apenas a partir da
informação visual de sua forma.
A linguagem visual da embalagem acabou criando a possibilidade de se
ter um repertório iconográfico bastante extenso, onde as embalagens
passaram a incorporar funções não somente de acondicionamento ou
para transporte, mas também de comunicação, conformação e valoração
do produto, cuja tradução em objetos trouxe ao mercado novas
possibilidades, as quais antes não haviam por limitações técnicas da
época, não podendo identificar as variedades de produtos existentes,
obrigando, dessa forma a uma identificação precária dos conteúdos.
Com isso, “conter” e “identificar” tornaram-se parceiras e suas
implicações ampliaram-se de acordo com o crescimento do mercado.
Esse crescimento fez surgir as primeiras empresas dedicadas ao
comércio de mercadorias em escala mundial, dando assim um impulso
considerável na construção da configuração da linguagem visual da
embalagem, pois não só passou a discriminar o conteúdo, como também
a informar sobre sua origem.
Já em meados do século XVIII os rótulos eram usados numa escala nada
modesta em todas as formas de embalagens, no entanto sua impressão
deixava muito a desejar, já que a impressão em cores deste material
ainda não era uma realidade palpável.
Com o advento da cromolitografia, desenvolvida por Alois Senenfelder,
as cores passaram a coexistir em impressos para rótulos, quebrando
dessa forma, um paradigma que há tanto tempo assolava a evolução dos
rótulos e etiquetas da época, tornando-os mais atraentes e capazes
de comunicar ainda mais aos consumidores. Esta técnica de impressão,
capaz de utilizar até 12 cores em um sistema de pontos combinados
com áreas de impressão chapada, gerou rótulos de beleza e qualidade
artística incomparáveis. Porém, ainda nessa época, a grande
finalidade dos rótulos era identificar o conteúdo da embalagem. Com
o desenvolvimento da indústria farmacêutica, essas informações
passaram a ser insuficientes, o que gerou novas necessidades de
comunicação devido à precisão das informações. Isso possibilitou a
inclusão de imagens mais elaboradas e até mesmo cenas demonstrativas
da utilização do produto.
Os novos rótulos “roubavam a cena”, tornando-se assim produtos do
desejo dos consumidores, promovendo até mesmo coleções, e os
fabricantes, percebendo que os rótulos vendiam seus produtos
buscaram meios de torná-los mais elaborados ainda. Brasões, medalhas
ou outros elementos como bandeiras e flâmulas, além da
diversificação de acabamentos como metalizações e tintas especiais,
bordas e filigranas decorativas e fontes com design sofisticado
conferiram aos rótulos um maior grau artístico. Na época, isso
aumentava em muito o valor agregado ao produto, mas isso não se
restringiu a apenas os séculos XVIII e IX, como também, ainda hoje,
em produtos com maior valor percebido sua utilização é bem-vinda.
A evolução dos processos e o desenvolvimento de novas tecnologias
provocaram o aparecimento uma visão mais ampla das possibilidades
comerciais. As necessidades de acondicionamento dos produtos geraram
buscas inovadoras onde até premiações eram feitas para quem
conseguisse manter a integridade do conteúdo intacta. No segmento
alimentício um grande salto foi dado no final século IX com a
invenção das latas descartáveis com tampa tipo crown (tampinha de
garrafa) cuja maior vantagem se deu na substituição dos complicados
dispositivos de fechamento utilizados pela indústria de bebidas.
No início do século XX a linguagem visual das embalagens já passara
por grandes evoluções. A indústria de cosméticos e perfumaria
utilizava-se do estilo art noveau de forma a incorporar
características de valoração mais próximas do conceito do produto,
vinculando-o aos acontecimentos recentes dos cenários artístico e
cultural da época. Da mesma maneira o movimento art déco foi
utilizado de forma a influenciar até mesmo outras linguagens como a
do setor de vestuário entre outros.
A iconização de muitas marcas deu-se logo que a Primeira Guerra
Mundial chegou ao seu fim, consolidando-as e gravando na mente do
consumidor suas características principais. Aos brasões, faixas,
tarjas e filigranas além das vinhetas ilustrativas uniram-se os
módulos e imagens que agora, com o avanço tecnológico, poderiam
conferir às embalagens maior fidelidade em suas reproduções.
No início da década de 1940, a embalagem recebeu um novo elemento de
comunicação visual, o splash, que se tornaria nos anos seguintes uma
marca registrada da época. Mas a era de ouro ocorreu mesmo com o fim
da Segunda Guerra Mundial, onde a sociedade de consumo de massas e o
desenvolvimento das mídias de comunicação e publididade passaram a
estabelecer um padrão visual para as embalagens a ponto de ficarem
como as conhecemos hoje.
Já nos sistemas de auto-serviço, as embalagens passaram a compor uma
nova gama de necessidades, o que as obrigou a uma reformulação
completa. Não mais o vendedor apresentava o produto, suas
características e especificidades, a embalagem deveria fazer isso
por si só, convencendo o consumidor de suas qualidades e fazendo com
que o desejo de compra se realizasse.
Com a Revolução Industrial, e com o surgimento da sociedade de
consumo a embalagem modernizara-se trazendo para o vocabulário um
novo conceito, o apetite (appeal). Aliando-se às modernas técnicas
da fotografia publicitária e ao avanço das tecnologias offset e
rotogravura, cenas mais elaboradas foram incorporadas para aumentar
o apetite e despertar o desejo de consumo no público, estabelecendo
intencionalmente uma reação provocada no desejo do consumidor.
Na década de 1960, com a Pop Art, percebeu-se uma maior influência
das embalagens na vida dos consumidores. Andy Warhol com sua lata de
sopa Campbell´s mostrou que algo do cotidiano das pessoas não era
percebido por elas. Transformando-a em arte e ícone da cultura de
massa, despertou nas empresas a visão de que a embalagem era uma
poderosíssima ferramenta de marketing, capaz de comunicar e
despertar o desejo no consumidor mais que qualquer outro meio para a
comunicabilidade dos produtos.
A partir daí a evolução das embalagens passou a acompanhar a
evolução da sociedade de consumo, absorvendo os avanços tecnológicos
e incorporando a linguagem do design e da comunicação visual.
Hoje, o design de embalagem é uma atividade que necessita de maior
atenção por sua complexidade e sua influência no comportamento do
consumidor a ponto de interferirem nos canais de distribuição e na
estrutura produtiva de algumas indústrias. Tudo isso para agregar
valor e significância ao produto, (emotional appeal).
Conter, proteger, identificar, expor, comunicar, informar, provocar
desejos e vender, estes são os atributos que a embalagem precisa ter
para desempenhas eficientemente seu papel que é o de fazer o produto
existir em cenários que a cada dia se tornam mais competitivos.
A embalagem tem uma característica primordial que os produtores não
devem negligenciar. Além das funções de logística, proteção, venda a
embalagem (proteção do produto para estocagem, manutenção e
transporte) e o acondicionamento têm funções técnicas e comerciais.
Por esta razão, existem três níveis de embalagem.
• A embalagem logística que permite os trabalhos com manutenção,
estocagem, transporte e distribuição dos produtos;
• A embalagem protetora que serve para proteger e conservar o
produto;
• A embalagem vendedora que serve de suporte à mensagem comercial
que auxilia a venda.
Mas suas funções não se baseiam apenas nestes princípios. Ela
assegura uma função de conteúdo que é tanto influenciada pelas
informações técnicas como comerciais. A natureza da embalagem
depende, por exemplo, da composição e do volume do produto que irá
conter.
Uma embalagem deve facilitar a utilização do produto. Pode, por
exemplo, auxiliar na manutenção da distribuição com os canais
específicos, simplificar as condições de uso (abertura, encaixe,
organização,...) e pode constituir uma garantia de inviolabilidade
mantendo a integridade do produto.
No primeiro contato entre o consumidor e o produto, a embalagem deve
prender a atenção do consumidor, ajudá-lo a perceber e identificar
rapidamente o produto e a diferenciar-se dos produtos concorrentes.
Através da embalagem e da rotulagem temos o veículo da informação: a
marca, as menções legais e obrigatórias, as indicações práticas
precisando a composição, as quantidades, precauções ou sugestões de
emprego e utilização, garantias da qualidade ou ainda a data de
validade, e em alguns casos, todas estas informações em mais de uma
língua quando as dimensões permitem.
Através do grafismo, cores, ilustrações, material utilizado, o
produto pode influenciar a percepção do consumidor assim como seu
posicionamento no mercado. A embalagem é sempre o elo entre o
produtor e o consumidor, deve ainda passar uma boa imagem do produto
e da empresa além de ser coerente com a estratégia comercial adotada.
A embalagem ajuda a vender o produto fornecendo ao consumidor uma
motivação para a compra. Ajuda o consumidor a escolher e contribui
para a fidelização. É um elemento de promoção, antes mesmo da
distribuição. Os distribuidores desejam de certa forma produtos
fáceis para armazenar e que se promovam facilmente nas prateleiras.
A padronização ou adaptação de uma embalagem é importante para
facilitar a produção em massa, reduzindo custos e o uso dos recursos
em escala, assim como reduzir os custos com manutenção (estocagem),
armazenamento e com a expedição do produto.
Se as economias dos custos gerados pela padronização das embalagens
são substanciais, o produtor pode passar esta economia em uma
redução do preço de venda do produto e, assim, tornar o produto mais
competitivo e atraente para o consumidor. Com a padronização os
meios de otimização dos espaços para estocagem e armazenamento ficam
facilitados em todos os níveis dos canais de distribuição. Facilita
também os processos de compra para o consumidor que pode perceber
mais facilmente os produtos e as características de uma marca,
sobretudo para bens de consumo vendidos no varejo.
Com a padronização as condições impostas pelas normas internacionais
podem ser mais bem aplicadas a fim de cumprir algumas necessidades
de nível cultural, geográfico, social, econômico ou legal.
A padronização fará também com que os atributos essenciais da
embalagem possam ser eficazes em suas tradicionais três funções: a
de proteger, de transportar e de informar. Proteger o produto contra
a agressão externa, a fim de garantir a preservação deste produto em
perfeito estado, evitando que sofram com perigos físicos: choque,
calor, frio, sol, poeira..., riscos químicos: umidade, corrosão,
projeções de detergente, ou qualquer combustível poluente...,
perigos microbiológicos: leveduras, fungos, agentes patogênicos para
os alimentos... Mas também pode ajudar a transportar e permitir a
simplificação de armazenagem para o atacadista. A embalagem muitas
vezes é concebida como um elemento de distribuição, através da
adaptação de uma forma adequada para o espaço em um palete ou
container. Torna-se uma plataforma rápida para produtos específicos,
tais como meias apoiará com um gancho para permitir a imediata
suspensão.
Facilita manuseio para o cliente. Pequenos objetos serão agrupados,
por exemplo, uma caixa com 100 parafusos é mais fácil de transportar
do que 100 parafusos soltos. Em contrapartida, os produtos
utilizados pelos profissionais do setor gastronômico (farinha,
sal...) será vantajosa vendido em pequenas embalagens para uso
doméstico. Informar o cliente tornou-se muito importante. A
embalagem veicula regulamentos e informações sobre o produto, como
proceder, uso ou descarte do produto podem ser expostos em uma das
faces, que contém um registro ou na etiqueta. A embalagem suporta
rastreabilidade para verificar a integridade de um gênero
alimentício (prazo consumo) prazo para entrega validade. As
informações jurídicas são diversas, e às vezes ilustradas com
pictogramas. Algumas informações são obrigatórias em Braille para
deficientes visuais (drogas para a saúde humana). Define o produto
para evitar a possível confusão sobre a natureza dos conteúdos, por
exemplo, impossível confundir uma garrafa de vinho Bordeaux com o da
Borgonha. Facilita a utilização do produto, como a embalagem deve
servir o produto. A embalagem tem um bico dosador, a tampa se torna
o bico dosador, oferece uma alça, o tabuleiro vai ao microondas e se
torna um prato ... É a mudança da embalagem. Deve ter também o
objetivo de defender, por um lado, o consumidor garantindo a
inviolabilidade das embalagens antes de comprar para evitar fraudes,
a fim de proibir que alguém introduza alguma substância estranha no
produto, ou impedir que os consumidores percebam gosto ou o cheiro
não próprios do produto.
Preservar o meio ambiente, hoje é uma das grandes qualidades do
mercado sustentável: os resíduos de embalagens após a sua utilização
devem ser recuperáveis para minimizar o seu impacto sobre o meio
ambiente. Daí surge o eco-design de embalagens.
Em marketing, a escolha da embalagem é fundamental. Numa embalagem
familiar, por exemplo, existe o sentimento de partilha da nossa vida
quotidiana, mas há um bom tempo atrás, quando o mercado doméstico
retornava com alimentos em jornais antigos, onde o comerciante
colocava seus salgadinhos em uma espiral de papel dobrado! A mera
proteção durante o transporte, a embalagem final para o vendedor
torna-se um objeto de sedução para o consumidor final. Para ser
convencido, basta ver na televisão a publicidade de um produto,
ainda é a embalagem que encanta por um curto período de tempo. A
embalagem é sempre a primeira visão que temos de um produto... Muito
poucos produtos são agora entregues sem embalagem. Há um constante
aumento da tecnologia, para satisfazer as crescentes demandas de
logística, segurança. Além disso, o pacote suporta o sonho, o
desejo, impulsionando a atração para o produto, ele se torna o motor
da venda. Às vezes, as empresas unem ao produto, brindes ou cupons
para com isto seduzir os clientes. Esta prática é chamada de
co-packing. A embalagem se tornou uma ferramenta de sedução, porque
alguns esforços de design podem impulsionar as vendas. Agora, com as
inovações está difícil, em relação ao produto, de o fabricante
diferenciá-lo da embalagem. No entanto, todos os materiais têm seus
pontos fortes e os seus mercados, basta que falem a língua do
consumidor, atendendo às suas necessidades e encantando com a
percepção de valor gerada.
COMENTÁRIOS AO ARTIGO EM:
http://www.portaldasartesgraficas.com/forum/viewtopic.php?f=40&t=2640
* Santos é gerente de
marketing do Grupo Furnax.
Formado em desenho industrial pela FAAP,
Filosofia pela PFICB, Tecnologia Gráfica pela Faculdade SENAI
Theobaldo De Nigris e Pós-graduado em Gestão de Marketing pela FGV.
Contato: +55 11 9497-7432 /
+55 11 3277-5658
infografista@ig.com.br
infografista@gmail.com
marketing@furnax.com.br