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Thomaz Caspary*
2008-11-05 |
E se eu fosse um contador? Seria para mim
frustrante ter cursado uma faculdade de ciências contábeis, ficando
numa escrivaninha me preocupando com contas a pagar, receber,
balancetes, ler novas regras no IOB ou publicações similares, enfim
trabalhar só com números para posteriormente apresenta-los ao meu
chefe, que certamente solicitaria para modificar isto ou aquilo. Eu
teria uma sensação de impotência, de agonia pela incapacidade de
ajudar meu “patrão” a resolver seus problemas.
Pois sabia você meu caro gráfico, que nas nossas
empresas, acho que na verdade somos, na maioria, todos contadores.
Passamos grande parte do nosso tempo diante de situações
irreversíveis, examinando do porque o mês não deu lucro, se foi o
processo de produção ou o pré-cálculo, se foram as más negociações
de nosso departamento de vendas, enfim, procuramos os porquês dos
porquês em uma série de relatórios e naturalmente sempre os
culpados.
Passamos a vida toda registrando quanto foi que
vendemos do mês, o lucro, as despesas, quanto comprou o cliente
“tal”, qual a participação dos custos fixos... Tudo no passado, como
um contador, registrando o que aconteceu. Contar, medir, somar,
dividir ou multiplicar, é muito fácil.
Tirar conclusões, fazer brainstorming, elaborar
cenários, definir os indicadores corretos, não é tão fácil assim. Eu
me pergunto por que temos essa dificuldade em utilizar indicadores
que reflitam a tendência dos negócios antes que “a vaca vá pro
brejo?” Temos estes indicadores em nossos programas de gestão (Metrics,
Calcgraf, E-Calc, Bremen, Zênite e outros), em revistas e jornais
econômicos (Valor Econômico, DCI, Gazeta Mercantil, etc...) ou mesmo
na seção econômica de nossos jornais diários. Por que essa
incapacidade de encontrar indicadores que reflitam para onde vai - e
não apenas de onde vem o negócio de nossa empresa?
Pegamos os números de nossos relatórios,
transformando-os simplesmente em verdades, manipulados como se
fossem absolutos, sem saber ao certo se estão corretos imaginando
que as coisas são estáticas, esperando para ser medidas, da mesma
forma como um contador anota e relaciona receitas e despesas.
Mas hoje em dia, o que está estático? Como
capturar em números a complexidade de nossas vidas? Uma grande
maioria, de nossos empresários torna-se tão bitolada pelos números,
que perdem totalmente o seu bom senso e seus instintos. Felizmente
ainda existem muitos empresários que se cercam de informações
consistentes e gente com conhecimento de mercado, visitando feiras e
congressos, participando de seminários e, portanto, não caindo nesta
armadilha. Alguns gráficos tomam decisões baseadas em conselhos de
colegas, no “ouvir falar” que dá resultado, etc... Tornam-se meros
joguetes nas mãos dos hábeis manipuladores de números. Li outro dia
um texto na internet, cujo autor desconheço, que mostra claramente
como é importante para o nosso empresário, se informar e estar a par
do que acontece no mundo dos negócios, passando informações para as
gerações que o irão suceder. Diz o texto:
“Um calouro muito arrogante, que estava assistindo
a um jogo de futebol, tomou para si a responsabilidade de explicar a
um senhor já maduro, próximo dele, por que era impossível a alguém
da velha geração entender esta geração. "Vocês
cresceram em um mundo diferente, um mundo quase primitivo",
o estudante disse alto e claro de modo que todos em volta pudessem
ouvi-lo”.
“Nós, os jovens de hoje, crescemos com televisão,
aviões a jato, viagens espaciais, celulares com TV, computadores,
Ipod’s. Nós temos energia nuclear, carros movidos e dirigidos por
computadores com grande capacidade de processamento e..., - numa
pausa para tomar outro gole de cerveja. O senhor se aproveitou do
intervalo do gole para interromper a liturgia do estudante em sua
ladainha e disse”:
- 'Você está certo, filho. Nós não tivemos essas
coisas quando nós éramos jovens... por isso nós as inventamos. E
você, uma “buchinha” arrogante dos dias de hoje, o que você está
fazendo para o seu semelhante e para a próxima geração?”.
Números transformam-se na trincheira da
incompetência, da burocracia, da insegurança, do imobilismo, da
aversão à inovação, da manutenção da rotina. E tem mais. Na época
que estamos vivendo, principalmente com a evolução tecnológica vista
na DRUPA 2008, nossas gráficas enfrentam um desafio inédito: o de
ter que recrutar pessoas em um mercado aquecido. Gente tem, mas a
falta de qualificação ainda deixa em aberto muitas vagas. Tente
contratar um bom vendedor ou um bom chefe de impressão que além de
conhecimentos técnicos tenha habilidades em RH.
Totalmente possuídos pelos números, saem os
gráficos desesperadamente atrás de ISO 9000, TQS e outros programas
da moda apoiados em números, que parecem ser a solução para todos os
nossos problemas. Mas não percebemos que esses programas apenas
garantem, a quem produz porcaria, a capacidade de continuar
produzindo porcaria com qualidade assegurada e processo confiável,
mantendo a baixa lucratividade da indústria gráfica. Não sabemos
fazer análises dos números coletados.
Não bastasse a incompetência em estabelecer, o que
medir continuamos contadores. Medimos o passado. Examinamos o que
aconteceu, depois de acontecer. Meu caro gráfico, se você é um
desses contadores, tome cuidado. No mundo dos negócios, o próximo
estágio é o cemitério. Espero ardentemente que você não seja o
defunto.
* Thomaz Caspary é
Engenheiro de Mídia Impressa, consultor
de empresas e diretor da Printconsult Ltda. (11) 3167-6939.
www.printconsult.com.br