O formato JDF

 

Artigo de Aires Fonseca

 

 

O formato JDF foi criado e desenvolvido para tentar racionalizar a permuta de dados. O JDF deverá ligar entre si toda a comunidade gráfica.

 

A indústria gráfica utiliza hoje em dia muitas soluções de software heterogéneas, difíceis de ligar entre si. Foi essa situação que deu origem ao aparecimento do formato JDF (Job Definition Format). Quatro fabricantes de equipamentos para a indústria - Adobe, Agfa, Heidelberg e MAN Roland - decidiram unir esforços para criar um formato capaz de simplificar a troca de informações, não apenas entre o impressor e o seu cliente mas também entre os diversos intervenientes no processo de produção. Na verdade, os idealizadores do JDF procuraram em primeiro lugar resolver os problemas de interligação. Em 2000, cederam os direitos de propriedade intelectual ao CIP3 (International Cooperation for the Integration in Prepress, Press and Postpress) a fim de garantir o desenvolvimento desta nova tecnologia, que viria a receber a sigla de JDF. Dado este primeiro passo, a CIP3 transformou-se na CIP4 (International Cooperation for the Integration of Process in Prepress, Press and Postpress). O consórcio reune a partir de agora os principais intervenientes dos sectores da comunicação e das indústrias gráficas. O CIP4 concentra os seus esforços, desde a sua criação, sobre as extensões do JDF. Os seus membros formaram grupos de trabalho e colaboram no desenvolvimento da noção-chave da futura norma, a interoperabilidade. Desde há já algum tempo que o termo JDF entrou na linguagem corrente da cadeia gráfica. O princípio de intermediário na permuta de informação está ganho, mas a estrutura propriamente dita desta tecnologia é desconhecida na maior parte dos casos.

 

O JDF é um formato de permuta de dados, e não uma aplicação ou um produto que se possa comprar. Trata-se, no fundo, de uma norma. Foi concebido com base em soluções parciais que já existiam, tal como o PPF (Print Production Format), que também tinha sido desenvolvido no quadro do CIP3, e o PJTF (Portable Job Ticket Format), da Adobe. Mas, cuidado: o JDF não é um formato de documento gráfico e não se destina por isso a substituir formatos como, por exemplo, o PDF (Portable Document Format).

 

 

Prever a evolução do formato

 

O primeiro documento de especificação do JDF teve perfeitamente em conta as diversas etapas para a realização de documentos impressos: o pedido do cliente, a encomenda, o trabalho de pré-impressão, a realização dos filmes e das chapas, a impressão, o corte, o acabamento e a entrega. Esta descrição em linhas muito gerais não evoluíu muito nas versões seguintes. O JDF está estruturado basicamente sobre cinco elementos fundamentais: as operações, os sistemas, os parâmetros, as informações sobre o desenrolar de uma operação e as mensagens.

 

As operações, designadas por process na norma, são na realidade uma lista das etapas reais de realização de um trabalho. Por exemplo, a tiragem de uma prova ou o acabamento são processes. Os sistemas, chamados devices, são as aplicações JDF que realizam as operações. Os parâmetros, ou resources, servem para prestar informações aos sistemas antes de um tratamento, ou então podem ser novas informações provenientes de um tratamento e que podem ser úteis para outros tratamentos. As informações sobre o desenvolvimento de uma operação são chamadas "audits". Finalmente, o JMF (Job Messaging Format) assegura a informação entre os diversos sistemas e permite garantir a interligação dos mesmos. O modo como as operações se podem encadear é também descrito de uma maneira precisa. Uma noção fundamental é a disponibilidade ou indisponibilidade de alguns parâmetros. É, aliás, por isso que os parâmetros são chamados resources. Assim, e a título de exemplo, a operação de impressão não se pode realizar se a chapa não estiver feita, se o papel necessário não estiver disponível e se não for possível fornecer à máquina de impressão o perfil de tintagem. Além da definição do conteúdo do formato JDF, foram criados métodos para prever a evolução do formato. O primeiro consiste na escolha do XML, um formato de descrição de dados muito evolutivo. Se fizermos uma analogia com a linguagem, o XML é o equivalentes das palavras e o JDF é o equivalente da gramática, ou seja, da maneira de encadear as palavras para formar frases. O XML tem a vantagem de ser uma tecnologia particularmente orientada para a Internet, o que é muito útil para o JDF. Os sistemas JDF podem ser visualizados na Internet e podem comunicar entre si utilizando os protocolos http. Beneficiam, assim, naturalmente de todas as inovações tecnológicas como, por exemplo, os servidores JSP (Java Server Pages).

 

 

Uma norma completa

 

De um ponto de vista histórico, a primeira versão do JDF viu a luz do dia em Abril de 2001. É essa a versão a que nos temos estado a referir até aqui. A utilização concreta da versão 1.0 do JDF tornou possível detectar lacunas, como foram o sistema de coordenadas ou a noção de duração em que nunca se tinha pensado, ou ainda um método para descrever as possibilidades dos sistemas (device capabilities) ou então um número maior de operações a serem definidas só depois da impressão (embalagem, arrumação em palettes, aplicação de etiquetas, perfuração, etc). Estas adições, bem como outras melhorias de menor vulto, foram introduzidas um ano mais tarde, em Maio de 2002, com a versão 1.1. Infelizmente, porém, veio a verificar-se que nem todas as lacunas tinham sido detectadas, o que obrigou a uma nova revisão da norma nalguns pontos suplementares logo em Setembro de 2002. Os trabalhos sobre a definição do JDF 1.2 encontram-se já bastante avançados, sobretudo a partir da última reunião do CIP4 que teve lugar em San José, Califórnia, em Maio de 2003. É interessante notar que os primeiros ensaios de interoperabilidades foram realizados pela primeira vez entre as aplicações de diversos fabricantes de aplicações durante esse congresso. Previa-se que a estrutura definitiva deveria ser finalizada em finais de 2003. Um certo número de etapas complexas não era senão objecto de uma descrição superficial e não permitiam a cada construtor representar os mesmos dados da mesma maneira no JDF 1.1.a. Era, por exemplo, o caso da paginação, da imposição ou da verificação dos documentos (o preflight), que farão objecto de uma descrição mais detalhada no JDF 1.2. Os grupos de trabalho que se ocuparam desta versão deram-se, entretanto, conta de novas matérias sobre as quais a norma pode ser completada, o que significa que a agenda do JDF 1.3 começa já a estar bastante cheia. Pode citar-se como exemplo o caso do grupo de trabalho do CIP4 sobre os ciclos de integração das publicidades, os chamados assets transfert.

 

 

A integração do JDF nos MIS

 

A finalidade do JDF consiste em cobrir a totalidade do ciclo de produção, desde o recebimento da encomenda à entrega. Isto vai permitir melhorias em três domínios: as relações entre os profissionais gráficos e os seus clientes; as relações entre os profissionais; a coerência do ciclo de produção.

 

Actualmente, os sistemas de gestão de informação MIS (Management Information System) do mercado permitem um contacto com a clientela por meio da utilização de serviços pela Internet, do armazenamento e do seguimento dos fluxos de informações. Mas, devido à ausência de ligações reais com os sistemas de produção, algumas informações são introduzidas frequentemente por via manual ou, simplesmente, são ignoradas. Esta prática pode conduzir à produção de relatórios destinados ao utilizador em que nem todos os dados foram retomados, e não são por isso fiáveis. Na prática, os MIS asseguram perfeitamente as informações que dizem respeito à encomenda e ao produto acabado. Mas tais sistemas não asseguram a cobertura fiel das etapas intermédias, ou seja, as que são necessárias à realização do produto, e que são indispensáveis. Por exemplo, uma pessoa que pretende imprimir um folheto deseja validar uma prova em papel antes que os filmes ou as chapas sejam produzidos. Os MIS são muitas vezes capazes de formalizar esta fase de validação, mas raramente se consegue obter esta informação em tempo útil. Com efeito, este processo manual está totalmente dependente da disponibilidade das pessoas que dele se ocupam. Verifica-se, pois, um afrouxamento da produção, com a correspondente perda de tempo e de dinheiro. As incidências positivas sobre a produtividade causadas pela chegada do JDF aos MIS estão circunscritas a empresas com a capacidade financeira para investir nestes sistemas. Contudo, as estruturas mais pequenas serão igualmente beneficiadas, uma vez que este formato contribuirá também para a melhoria dos sistemas de produção.

 

 

Uma estrutura aberta

 

A verdade é que muito boa gente só concebe o JDF num ambiente MIS, quando afinal ele é capaz de ser uma ferramente extremamente eficaz. Num contexto destes, o JDF vai ter uma palavra a dizer em duas situações diferentes. A primeira diz repeito à pré-impressão, onde nem sempre é fácil ligar entre si as diversas aplicações digitais, mas onde é lícito prever que o JDF facilite a sua integração, graças à sua estrutura aberta. Contudo, ainda é cedo para saber se esses fabricantes de soluções vão reagir no sentido de só apoiar uma parte do JDF para se protegerem, ou se estarão dispostos a revelar tudo. A segunda situação está relacionada com as máquinas de produção (máquinas de impressão, de acabamento, etc). Neste caso, o JDF vai simplesmente tornar possível levar a informação de produção ao MIS por meio de uma operação que não apresenta a menor dificuldade.

 

Até agora limitámo-nos a descrever uma cadeia de produção composta exclusivamente de dois elos, os profissionais gráficos e os seus clientes. Mas, na prática, a realização de um trabalho pode implicar a intervenção de diversos profissionais. É o que se passa quando cada um dos profissionais se concentra numa especialidade (gravador, impressor, etc) ou quando um profissional distribui a sua produção por diversas áreas. O acesso ao JDF ser-lhes-á benéfica, quer se trate da instalação de um MIS comum ou de uma interligação via Internet dos seus utensílios de trabalho. Como se vê, há ainda muito trabalho de aperfeiçoamento e de validação a realizar. Para que numerosos sistemas diferentes funcionem uns com os outros, é necessário conseguir acordos bilaterais entre os fabricantes. Para os profissionais gráficos, tal como para os seus clientes, o JDF será uma verdadeira revolução. Mas existe ainda um travão. Alguns fabricantes basearam a sua estratégia sobre um modelo não divulgado. Por isso, e mesmo que a aceitação do JDF já seja uma tendência irreversível, ainda é difícil prever se as empresas terão um comportamento conservador ou se estarão genuinamente dispostas a rever a referida estratégia.


Artigo de Aires Fonseca

 

 

 

 

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