1. Introdução
Estamos no séc. XXI, onde quase tudo está ao
alcance de um clique, com um clique estamos do outro lado do mundo,
com um clique visitamos familiares e amigos, com um clique
conhecemos novos amigos, com um clique aprendemos e ensinamos, com
um clique temos acesso às notícias, com um clique adquirimos
produtos e serviços e se assim o desejarmos, personalizados.
O clique não é unidade de medida, mas alterou a
noção de distância e, consequentemente, o paradigma de gestão das
empresas. Hoje em dia, a localização de uma empresa não define a sua
área de vendas; se assim o entender, a sua estratégia de expansão
poderá no limite abranger os 5 continentes, mesmo que não contemple
instalações nesses mercados.
Esta nova dinâmica de mercado, mais concorrencial
e com um consumidor mais exigente, é um enorme desafio para as PME
portuguesas, nomeadamente nas artes gráficas, onde se tem assistido,
quase diariamente, a uma evolução ou revolução tecnológica. Neste
rápido passo de corrida, a indústria portuguesa das artes gráficas
tem investido na modernização dos equipamentos e na especialização
dos seus recursos humanos, tem igualmente implementado, nem sempre
com sucesso, modelos de gestão que aperfeiçoem o seu desempenho,
nomeadamente o “Think Lean”, ou em português, “Produção Magra”.
O “Think Lean”, modelo de gestão desenvolvido pela
“Toyota” logo após a Segunda Guerra Mundial, tem como principal
objectivo eliminar o desperdício na produção, para poder implementar
os conceitos de operacionalização “Just in time” e “Autonomização”.
O “Just in time” tem como objectivo produzir só o estritamente
necessário, evitando gastos supérfluos com produção excedente e
armazenamento.
A Autonomização (“Jidoka”) é um sistema japonês,
defende que a produção deve ser executada por equipamento
supervisor, isto é, máquinas que têm agregado um sistema de
vigilância de controle de qualidade. Este sistema permite detectar
falhas durante a produção, alertar através de sinais sonoros e/ou
luminosos e até parar a produção. Os sistemas de autonomização mais
avançados, podem ainda corrigir o defeito, classificá-lo, compensar
a quantidade do produto final e prosseguir a produção sem a
intervenção do homem. A implementação do “Jidoka” permite libertar o
homem da produção, passando antes a intervir na supervisão e
resolução dos problemas.
Os 5 S’s, são igualmente um modelo japonês,
utilizado para a organização do local de trabalho e eliminação dos
desperdícios. Os 5 S’s estão divididos da seguinte forma:
1. “Seiri” – Sentido de utilização.
Na área de trabalho só deve existir o estritamente necessário ao
desempenho da função, facilita o fluxo e a mobilidade no local
de trabalho, promovendo o aumento da produtividade.
2. “Seiton” – Sentido de organização.
A área de trabalho deve ser organizada, todos os instrumentos
necessários ao desempenho da função devem estar acessíveis e
disponíveis por forma a eliminar os movimentos desnecessários.
3. “Seiso” – Sentido de limpeza.
Manter a área de trabalho limpa, facilita a localização de uma
ferramenta, um projecto, um trabalho.
4. “Seiketsu” – Sentido de
padronização. Organização de espaços de arrumos para
produtos que são necessários, mas que não estamos sempre a
utilizar.
5. “Shitsuke” – Sentido de
auto-disciplina. Manutenção dos 4 itens anteriores.
Para as artes gráficas PME este processo de
modernização, tem significado um enorme esforço financeiro, nem
sempre acessível ou possível, o que fez com que nos últimos anos
tenhamos presenciado, a algumas desistências, ao endividamento
excessivo para aquisição de equipamentos, ou ainda, empresas que
preferiram não se actualizar mas deixaram de ter capacidade de
resposta. É de salientar, no entanto, o empenho que as artes
gráficas PME têm demonstrado para se manterem competitivas, embora
nem sempre da forma mais sustentável para a empresa, nomeadamente na
aquisição individual do CTP. De facto, ao adquirir um CTP a empresa
está a apostar na inovação, qualidade, eficiência e maior capacidade
de resposta, aplicando na teoria os princípios da Produção Magra,
mas não ponderando, que no deve e haver, o seu parque de máquinas de
impressão poderá não absorver a quantidade de chapas que o CTP
grava, que o enorme esforço financeiro dispendido na amortização do
CTP, poderá significar não só um aumento de custo no produto final,
mas também pôr em causa a modernização do restante equipamento, bem
como a especialização dos recursos humanos, podendo em vez de
ganhar, perder competitividade.
É intrínseco nos portugueses a solidariedade para
com o outro, no campo do afecto e da caridade, mas esta disposição
de abrir a porta ao outro e criar sinergias não existe no meio
empresarial, porquê? As parcerias empresariais, ou a cooperação
empresarial, são a solução para a empresa se tornar mais competitiva
no mercado actual, porque ao desenvolver parcerias, e partilhando
riscos associados, promove a menor custo; a qualificação e
modernização dos equipamentos, aumenta a capacidade e a qualidade de
resposta, e tem ainda acesso a oportunidades de negócio que
individualmente não poderia concretizar. Ao criar uma parceria, um
pólo específico de produção, estará a contribuir, não só, para o
desenvolvimento sustentado da sua empresa mas também a assumir um
compromisso de responsabilidade social. Este modelo, também chamado
de “dinâmicas de cooperação” é considerado a base da evolução
económica dos países mais desenvolvidos como a Finlândia e a Suécia.
2. Análise
Com o objectivo de poder demonstrar as possíveis
vantagens da aplicação de um modelo de Cooperação Empresarial nas
Artes Gráficas PME, vamos apresentar o exemplo de uma empresa
gráfica que será denominada de ABC.
A ABC, está sediada na área metropolitana de
Lisboa, e fazem parte dos seus activos os seguintes equipamentos:
Para a realização de fotolitos:
• 2 Filmadoras no formato 35cm e 46cm de boca
• 1 Revelador de fotolitos
• 1 Prensa de transporte à chapa
• 1 Reveladora de chapas (o que totaliza um
valor residual de cerca de 30.000€)
Para a Impressão:
• 1 Máquina Heidelberg a 1 cor no formato
35x50cm de 1983
• 1 Máquina Heidelberg a 2 cores no formato
70x100cm de 1987
Tem 4 colaboradores, distribuídos nas áreas de;
pré-impressão, impressão e distribuição, o seu “core business” é a
impressão de folhetos, revistas, livros, a subcontratação de
serviços gráficos e soluções integradas de promoção para o cliente.
No ano de 2007 facturou cerca de 400.000 euros e consumiu 1500
chapas 70x100cm.
A empresa ABC, encontra-se num impasse, por um
lado sente que está a perder competitividade no mercado, e propõe-se
adquirir um CTP, para melhorar a qualidade e a capacidade de
resposta do seu produto, mas a aquisição de um CTP é um investimento
enorme para a ABC e poderá pôr em risco a sua competitividade, ao
suportar integralmente os custos da amortização do CTP, o que fazer?
1. Manter o sistema actual
2. Investir num CTP
3. Recorrer a um serviço externo para
gravação de chapas
4. Procurar parceiros na sua área de
localização e constituir um pólo de “gravação de chapas”
Análise Financeira para aquisição de CTP, tendo em
conta as seguintes opções:
a) Manter o actual (CTF+montagem)
b) Adquirir equipamento CTP
c) Recorrer a um serviço externo (compra de chapas gravadas /
por projecto.
|
Custos estimados por chapa 70x100cm |
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CTF |
Aquisição CTP |
Serviço Externo |
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Equipamento já amortizado |
Amortização por chapa
Investimento de 133.000.00€ |
Não aplicável |
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Matéria-prima |
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Custo Fotolito = 3.08€
Custo Chapa = 3.84€
Custo Diversos = 0.70€
(líquidos de revelação, manutenção, acessórios vários, etc)
Total = 7.62€ |
Chapa de CTP = 7.00€
Amortização por chapa = 10.00€
Líquido de revelação, manutenção, etc = 0.90€
Total = 17.90€ |
Não aplicável |
|
Tempos de produção |
|
Revelação fotolito - 5min / por cor
Montagem - 2min / por cor
Pose - 5min/ por cor
Revelação chapa - 1min/ por cor
Total = 13 min/ por cor |
Chapa – 5min cada |
Manhã – tarde
Tarde - próximo dia |
|
Recursos Humanos
(valores com base num vencimento mensal líquido de 1.000€) |
|
Pré impressão gasta cerca de 40% do seu tempo e a impressão
10%
Total = 4.00€ chapa |
1 Operador 15% do seu tempo
Total = 1.25€ por chapa |
Não aplicável |
|
Espaço |
|
Equipamentos + armazenamento dos materiais = 15m2
equivale a 165€/por mês (renda)
Total = 1.32€ por chapa |
Previsão de 7m2 = 82.5€
Total = 0.62 por chapa |
Não aplicável |
|
Serviços externos |
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Não aplicável |
Não aplicável |
20€ |
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totais |
|
Espaço: 1.32€
Recursos Humanos: 4.00€
Matéria-prima: 7.62€ |
Espaço: 0.62€
Recursos Humanos: 1.25
Matéria-prima: 10.00€ * |
20€ |
|
12.94€ |
18.87€ |
20€ |
* Cálculo de amortização em chapas com base num
consumo médio de 125 chapas mês e num valor residual anual de 15.750
euros a multiplicar por 4 anos.
3. Conclusão
Concluímos que existe uma diferença de 5.93€ por
chapa, o que significa que ao optar por esta solução teremos um
encargo mensal de 741,25€, a adicionar aos custos fixos da empresa.
Este valor terá que ser suportado pelos clientes já que o produto
não tem valor acrescentado pela solução em si.
Consideramos um investimento muito elevado, para
uma empresa PME, uma solução que poderá colocar em risco
investimentos em outras áreas da empresa, como por exemplo:
acabamento, impressão digital, serviços de design ou na área
comercial.
Prós e contras
|
CTF |
Aquisição CTP |
Serviço Externo |
|
Prós |
|
+ Económico
Processo já instalado |
Rapidez
+ Qualidade
Produção magra
Investimento de futuro |
Ausência de investimento
Responsabilidade externa
Mais espaço livre
Ausência de manutenção |
|
CTF |
Aquisição CTP |
Serviço Externo |
|
Contras |
|
Equipamento obsoleto
Matéria-prima mais rara
Lentidão |
Maiores encargos
Oferta excede a procura |
Timings
Pouca oferta de fornecedores
Espionagem |
Em Portugal existem diversos apoios para a
promoção e implementação de parcerias, porque não desenvolver uma?
Tente, analise o tecido empresarial da sua área,
focalize o seu objectivo, localize possíveis parceiros, inove na
estratégia, comunique, fomente a troca de conhecimento, desenvolva
dinâmicas de cooperação.
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Artigo técnico elaborado
no âmbito do Mestrado em Tecnologias Gráficas (ISEC),
para a disciplina de «Gestão da Produção Gráfica, Operações e
Tecnologias» - Novembro 2008
Por:
Carlos Monteiro,
Filipa Pias,
João Botelho,
Sónia Diogo