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Organizem-se. Parcerias precisam-se!

 

Por: Carlos Monteiro, Filipa Pias, João Botelho, Sónia Diogo

Mestrandos em Tecnologias Gráficas (ISEC)

04-12-2008

 

 

1. Introdução

 

Estamos no séc. XXI, onde quase tudo está ao alcance de um clique, com um clique estamos do outro lado do mundo, com um clique visitamos familiares e amigos, com um clique conhecemos novos amigos, com um clique aprendemos e ensinamos, com um clique temos acesso às notícias, com um clique adquirimos produtos e serviços e se assim o desejarmos, personalizados.

 

O clique não é unidade de medida, mas alterou a noção de distância e, consequentemente, o paradigma de gestão das empresas. Hoje em dia, a localização de uma empresa não define a sua área de vendas; se assim o entender, a sua estratégia de expansão poderá no limite abranger os 5 continentes, mesmo que não contemple instalações nesses mercados.

 

Esta nova dinâmica de mercado, mais concorrencial e com um consumidor mais exigente, é um enorme desafio para as PME portuguesas, nomeadamente nas artes gráficas, onde se tem assistido, quase diariamente, a uma evolução ou revolução tecnológica. Neste rápido passo de corrida, a indústria portuguesa das artes gráficas tem investido na modernização dos equipamentos e na especialização dos seus recursos humanos, tem igualmente implementado, nem sempre com sucesso, modelos de gestão que aperfeiçoem o seu desempenho, nomeadamente o “Think Lean”, ou em português, “Produção Magra”.

 

O “Think Lean”, modelo de gestão desenvolvido pela “Toyota” logo após a Segunda Guerra Mundial, tem como principal objectivo eliminar o desperdício na produção, para poder implementar os conceitos de operacionalização “Just in time” e “Autonomização”. O “Just in time” tem como objectivo produzir só o estritamente necessário, evitando gastos supérfluos com produção excedente e armazenamento.

 

A Autonomização (“Jidoka”) é um sistema japonês, defende que a produção deve ser executada por equipamento supervisor, isto é, máquinas que têm agregado um sistema de vigilância de controle de qualidade. Este sistema permite detectar falhas durante a produção, alertar através de sinais sonoros e/ou luminosos e até parar a produção. Os sistemas de autonomização mais avançados, podem ainda corrigir o defeito, classificá-lo, compensar a quantidade do produto final e prosseguir a produção sem a intervenção do homem. A implementação do “Jidoka” permite libertar o homem da produção, passando antes a intervir na supervisão e resolução dos problemas.

 

Os 5 S’s, são igualmente um modelo japonês, utilizado para a organização do local de trabalho e eliminação dos desperdícios. Os 5 S’s estão divididos da seguinte forma:

1. “Seiri” – Sentido de utilização. Na área de trabalho só deve existir o estritamente necessário ao desempenho da função, facilita o fluxo e a mobilidade no local de trabalho, promovendo o aumento da produtividade.

 

2. “Seiton” – Sentido de organização. A área de trabalho deve ser organizada, todos os instrumentos necessários ao desempenho da função devem estar acessíveis e disponíveis por forma a eliminar os movimentos desnecessários.

 

3. “Seiso” – Sentido de limpeza. Manter a área de trabalho limpa, facilita a localização de uma ferramenta, um projecto, um trabalho.

 

4. “Seiketsu” – Sentido de padronização. Organização de espaços de arrumos para produtos que são necessários, mas que não estamos sempre a utilizar.

 

5. “Shitsuke” – Sentido de auto-disciplina. Manutenção dos 4 itens anteriores.

 

Para as artes gráficas PME este processo de modernização, tem significado um enorme esforço financeiro, nem sempre acessível ou possível, o que fez com que nos últimos anos tenhamos presenciado, a algumas desistências, ao endividamento excessivo para aquisição de equipamentos, ou ainda, empresas que preferiram não se actualizar mas deixaram de ter capacidade de resposta. É de salientar, no entanto, o empenho que as artes gráficas PME têm demonstrado para se manterem competitivas, embora nem sempre da forma mais sustentável para a empresa, nomeadamente na aquisição individual do CTP. De facto, ao adquirir um CTP a empresa está a apostar na inovação, qualidade, eficiência e maior capacidade de resposta, aplicando na teoria os princípios da Produção Magra, mas não ponderando, que no deve e haver, o seu parque de máquinas de impressão poderá não absorver a quantidade de chapas que o CTP grava, que o enorme esforço financeiro dispendido na amortização do CTP, poderá significar não só um aumento de custo no produto final, mas também pôr em causa a modernização do restante equipamento, bem como a especialização dos recursos humanos, podendo em vez de ganhar, perder competitividade.

 

É intrínseco nos portugueses a solidariedade para com o outro, no campo do afecto e da caridade, mas esta disposição de abrir a porta ao outro e criar sinergias não existe no meio empresarial, porquê? As parcerias empresariais, ou a cooperação empresarial, são a solução para a empresa se tornar mais competitiva no mercado actual, porque ao desenvolver parcerias, e partilhando riscos associados, promove a menor custo; a qualificação e modernização dos equipamentos, aumenta a capacidade e a qualidade de resposta, e tem ainda acesso a oportunidades de negócio que individualmente não poderia concretizar. Ao criar uma parceria, um pólo específico de produção, estará a contribuir, não só, para o desenvolvimento sustentado da sua empresa mas também a assumir um compromisso de responsabilidade social. Este modelo, também chamado de “dinâmicas de cooperação” é considerado a base da evolução económica dos países mais desenvolvidos como a Finlândia e a Suécia.

 

 

2. Análise

 

Com o objectivo de poder demonstrar as possíveis vantagens da aplicação de um modelo de Cooperação Empresarial nas Artes Gráficas PME, vamos apresentar o exemplo de uma empresa gráfica que será denominada de ABC.

 

A ABC, está sediada na área metropolitana de Lisboa, e fazem parte dos seus activos os seguintes equipamentos:

 

Para a realização de fotolitos:

• 2 Filmadoras no formato 35cm e 46cm de boca

• 1 Revelador de fotolitos

• 1 Prensa de transporte à chapa

• 1 Reveladora de chapas (o que totaliza um valor residual de cerca de 30.000€)

Para a Impressão:

• 1 Máquina Heidelberg a 1 cor no formato 35x50cm de 1983

• 1 Máquina Heidelberg a 2 cores no formato 70x100cm de 1987

Tem 4 colaboradores, distribuídos nas áreas de; pré-impressão, impressão e distribuição, o seu “core business” é a impressão de folhetos, revistas, livros, a subcontratação de serviços gráficos e soluções integradas de promoção para o cliente. No ano de 2007 facturou cerca de 400.000 euros e consumiu 1500 chapas 70x100cm.

 

A empresa ABC, encontra-se num impasse, por um lado sente que está a perder competitividade no mercado, e propõe-se adquirir um CTP, para melhorar a qualidade e a capacidade de resposta do seu produto, mas a aquisição de um CTP é um investimento enorme para a ABC e poderá pôr em risco a sua competitividade, ao suportar integralmente os custos da amortização do CTP, o que fazer?

1. Manter o sistema actual

 

2. Investir num CTP

 

3. Recorrer a um serviço externo para gravação de chapas

 

4. Procurar parceiros na sua área de localização e constituir um pólo de “gravação de chapas”

 

Análise Financeira para aquisição de CTP, tendo em conta as seguintes opções:

a) Manter o actual (CTF+montagem)
 

b) Adquirir equipamento CTP


c) Recorrer a um serviço externo (compra de chapas gravadas / por projecto.

 

Custos estimados por chapa 70x100cm

CTF

Aquisição CTP

Serviço Externo

Equipamento já amortizado

Amortização por chapa

Investimento de 133.000.00€

Não aplicável

Matéria-prima

Custo Fotolito = 3.08€

Custo Chapa = 3.84€

Custo Diversos = 0.70€

(líquidos de revelação, manutenção, acessórios vários, etc)

Total = 7.62€

Chapa de CTP = 7.00€

Amortização por chapa = 10.00€

Líquido de revelação, manutenção, etc = 0.90€

Total = 17.90€

Não aplicável

Tempos de produção

Revelação fotolito - 5min / por cor

Montagem - 2min / por cor

Pose - 5min/ por cor

Revelação chapa - 1min/ por cor

Total = 13 min/ por cor

Chapa – 5min cada

Manhã – tarde

Tarde - próximo dia

Recursos Humanos

(valores com base num vencimento mensal líquido de 1.000€)

Pré impressão gasta cerca de 40% do seu tempo e a impressão 10%

Total = 4.00€ chapa

1 Operador 15% do seu tempo

Total = 1.25€ por chapa

Não aplicável

Espaço

Equipamentos + armazenamento dos materiais = 15m2

equivale a 165€/por mês (renda)

Total = 1.32€ por chapa

Previsão de 7m2 = 82.5€

Total = 0.62 por chapa

Não aplicável

Serviços externos

Não aplicável

Não aplicável

20€

 

totais

Espaço: 1.32€

Recursos Humanos: 4.00€

Matéria-prima: 7.62€

Espaço: 0.62€

Recursos Humanos: 1.25

Matéria-prima: 10.00€ *

20€

12.94€

18.87€

20€

 

* Cálculo de amortização em chapas com base num consumo médio de 125 chapas mês e num valor residual anual de 15.750 euros a multiplicar por 4 anos.

 

 

3. Conclusão

 

Concluímos que existe uma diferença de 5.93€ por chapa, o que significa que ao optar por esta solução teremos um encargo mensal de 741,25€, a adicionar aos custos fixos da empresa. Este valor terá que ser suportado pelos clientes já que o produto não tem valor acrescentado pela solução em si.

 

Consideramos um investimento muito elevado, para uma empresa PME, uma solução que poderá colocar em risco investimentos em outras áreas da empresa, como por exemplo: acabamento, impressão digital, serviços de design ou na área comercial.

 

 

Prós e contras

 

CTF

Aquisição CTP

Serviço Externo

Prós

+ Económico

Processo já instalado

Rapidez

+ Qualidade

Produção magra

Investimento de futuro

Ausência de investimento

Responsabilidade externa

Mais espaço livre

Ausência de manutenção

 

CTF

Aquisição CTP

Serviço Externo

Contras

Equipamento obsoleto

Matéria-prima mais rara

Lentidão

Maiores encargos

Oferta excede a procura

Timings

Pouca oferta de fornecedores

Espionagem

 

 

Em Portugal existem diversos apoios para a promoção e implementação de parcerias, porque não desenvolver uma?

 

Tente, analise o tecido empresarial da sua área, focalize o seu objectivo, localize possíveis parceiros, inove na estratégia, comunique, fomente a troca de conhecimento, desenvolva dinâmicas de cooperação.

 

 

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Artigo técnico elaborado no âmbito do Mestrado em Tecnologias Gráficas (ISEC), para a disciplina de «Gestão da Produção Gráfica, Operações e Tecnologias» - Novembro 2008
Por: Carlos Monteiro, Filipa Pias, João Botelho, Sónia Diogo


 

 

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