Nos últimos anos, têm sido muitas as alterações
tecnológicas que têm permitido à indústria gráfica tornar-se mais
eficiente e responder de forma mais rápida às exigências do mercado.
Contudo, isto está longe de significar a resolução dos
problemas do sector, pois, por um lado, investir nas novas
tecnologias pode ter custos muito elevados e, por outro, estas novas
tecnologias, nomeadamente a Internet, tornam o mercado cada vez mais
global, o que, consequentemente, aumenta de forma significativa a
concorrência.
Os clientes, por sua vez, exigem cada vez mais
qualidade e pedem tiragens mais reduzidas. O sector tem ainda de
fazer face a uma série de requisitos no que diz respeito à higiene e
segurança no trabalho e às questões tecnológicas, cada dia mais
prementes.
A todas estas condicionantes, veio juntar-se, nas
últimas semanas, uma incontornável crise financeira, que obriga os
gestores gráficos a tirar a cabeça da areia e optar por uma
estratégia que os leve à redução dos custos de produção que não
acrescentem valor para o cliente, ao mesmo tempo que melhoram a
qualidade do produto.
Isto é o que tem vindo a ser feito sobretudo nos
EUA, onde a indústria gráfica tem estado a implementar o método da
produção magra ou filosofia lean. Este novo método de gestão tem
origem na obra, The machine that changed the world, de James Womack.
O autor e Daniel Jones, investigadores norte-americanos, dedicaram
dez anos ao estudo dos métodos de gestão patenteados pelo Japão, e
mais especificamente pela Toyota Motors Company.
Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão, a braços
com inúmeras dificuldades e sem recursos, precisava de se
reconstruir, mas para lá destas dificuldades enfrentava ainda o
imponente domínio da indústria europeia e norte-americana. Face a
este cenário, a Toyota desenvolveu um sistema de fabrico, conhecido
como TPS - Toyota Production System, que viria a revolucionar a
indústria automóvel e em poucos anos seria adoptado por outras
indústrias japonesas.
O TPS, assente no princípio da eliminação do
desperdício e orientado para a satisfação do cliente, permitiu à
empresa competir com as outras economias e destacar-se da
concorrência, através da produção de variedade de produtos de
elevada qualidade e baixo custo. É então com base no estudo deste
sistema que Womack e Jones desenvolvem o conceito conhecido como
lean thinking, ou seja "pensamento magro", sintetizado na frase
"apenas o necessário, nem mais cedo nem mais tarde".
Ao lean thinking está associado um conjunto de
ferramentas que visam a optimização dos sistemas de produção,
garantindo a redução de energia, materiais, stocks, desvios e
mão-de-obra, reforçando a flexibilidade do processo e a qualidade do
serviço prestado ao cliente. Tem ainda uma especial atenção aos
aspectos associados à ergonomia e organização do local de trabalho,
tendo em vista a anulação de deslocações desnecessárias de pessoas,
materiais e informação. Os tempos de espera são reduzidos e os erros
antecipados e eliminados.
Segundo Rothenberg (2004), o sucesso deste método
deve-se à simbiose de três fundamentos primordiais: a redução e/ ou
eliminação de desperdício, a optimização dos sistemas de produção e
a gestão dos recursos humanos.
O primeiro fundamento está associado à produção
Just in time, que visa a produção daquilo que é estritamente
necessário, evitando o excesso de stocks e o desperdício. Para a
optimização dos sistemas de produção, destaca-se o princípio da
melhoria contínua, ou Kaizen, que promove a responsabilização dos
colaboradores para a análise e identificação de possíveis problemas
na linha de produção. O terceiro fundamento, a gestão dos recursos
humanos, tem uma importância indubitável, na medida em que incide na
atenção aos colaboradores, procurando, através da motivação e
proximidade, obter bons resultados aos níveis da eficácia e
eficiência. Em Portugal, a produção magra tem vindo a ser
implementada gradualmente, sobretudo na indústria automóvel, mas já
se encontra presente noutros sectores, como é o caso da indústria
vidraceira, nomeadamente na Crisal Glass. No que se refere à
indústria gráfica, constata-se que algumas gráficas já fazem uso de
algumas ferramentas deste método, sem que haja, porém, um
conhecimento explícito do mesmo. No entanto, a sua aplicação à
indústria gráfica nacional afigura-se como algo incontornável nos
próximos anos, para que o sector possa sobreviver e emancipar-se.
Cabe agora aos nossos profissionais reflectirem
sobre as vantagens que o pensamento lean poderá trazer à sua
empresa. Mas a verdade é que o sector terá de estabelecer objectivos
a médio prazo para começar a colher os resultados desta filosofia,
cujo lema é a “melhoria contínua”, através de técnicas muito
simples, mas que o podem tornar competitivo, eficiente e com grande
capacidade de vencer a concorrência, abandonando progressivamente a
produção em massa.
COMENTÁRIOS AO ARTIGO EM:
http://www.portaldasartesgraficas.com/forum/viewtopic.php?f=40&t=2634
Bibliografia
Cost, F. e Daly, B. (2003). Digital integration and lean
manufacturing practices of U.S. printing firms. Rochester Institute
of Technology. Printing Industry Center, acedido a 28 de Outubro de
2008, em:
http://print.rit.edu/pubs/picrm200309.pdf
Rothenberg, S. e Cost, F. (2004). Lean Manufacturing in Small and
Medium Sized Printers. Rochester Institute of Technology. Printing
Industry Center, acedido a 28 de Outubro de 2008 em
http://print.rit.edu/pubs/picrm200404.pdf
Sebrosa, Rui (2008). Modelo de avaliação das
condições de aplicação da produção magra. O caso da indústria
gráfica. Dissertação de Mestrado.
Artigo técnico elaborado
no âmbito do Mestrado em Tecnologias Gráficas (ISEC), para a
disciplina de «Gestão da Produção Gráfica, Operações e Tecnologias»
- Novembro 2008
Por:
Cristina Semedo, Paula
Delgado e Susana Neto