Como "emagrecer" na Indústria Gráfica

 

Cristina Semedo, Paula Delgado e Susana Neto

Mestrandos em Tecnologias Gráficas (ISEC)

20-11-2008

 

 

Nos últimos anos, têm sido muitas as alterações tecnológicas que têm permitido à indústria gráfica tornar-se mais eficiente e responder de forma mais rápida às exigências do mercado. Contudo, isto está longe de significar a resolução dos problemas do sector, pois, por um lado, investir nas novas tecnologias pode ter custos muito elevados e, por outro, estas novas tecnologias, nomeadamente a Internet, tornam o mercado cada vez mais global, o que, consequentemente, aumenta de forma significativa a concorrência.

 

Os clientes, por sua vez, exigem cada vez mais qualidade e pedem tiragens mais reduzidas. O sector tem ainda de fazer face a uma série de requisitos no que diz respeito à higiene e segurança no trabalho e às questões tecnológicas, cada dia mais prementes.

 

A todas estas condicionantes, veio juntar-se, nas últimas semanas, uma incontornável crise financeira, que obriga os gestores gráficos a tirar a cabeça da areia e optar por uma estratégia que os leve à redução dos custos de produção que não acrescentem valor para o cliente, ao mesmo tempo que melhoram a qualidade do produto.

 

Isto é o que tem vindo a ser feito sobretudo nos EUA, onde a indústria gráfica tem estado a implementar o método da produção magra ou filosofia lean. Este novo método de gestão tem origem na obra, The machine that changed the world, de James Womack. O autor e Daniel Jones, investigadores norte-americanos, dedicaram dez anos ao estudo dos métodos de gestão patenteados pelo Japão, e mais especificamente pela Toyota Motors Company.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão, a braços com inúmeras dificuldades e sem recursos, precisava de se reconstruir, mas para lá destas dificuldades enfrentava ainda o imponente domínio da indústria europeia e norte-americana. Face a este cenário, a Toyota desenvolveu um sistema de fabrico, conhecido como TPS - Toyota Production System, que viria a revolucionar a indústria automóvel e em poucos anos seria adoptado por outras indústrias japonesas.

 

O TPS, assente no princípio da eliminação do desperdício e orientado para a satisfação do cliente, permitiu à empresa competir com as outras economias e destacar-se da concorrência, através da produção de variedade de produtos de elevada qualidade e baixo custo. É então com base no estudo deste sistema que Womack e Jones desenvolvem o conceito conhecido como lean thinking, ou seja "pensamento magro", sintetizado na frase "apenas o necessário, nem mais cedo nem mais tarde".

 

Ao lean thinking está associado um conjunto de ferramentas que visam a optimização dos sistemas de produção, garantindo a redução de energia, materiais, stocks, desvios e mão-de-obra, reforçando a flexibilidade do processo e a qualidade do serviço prestado ao cliente. Tem ainda uma especial atenção aos aspectos associados à ergonomia e organização do local de trabalho, tendo em vista a anulação de deslocações desnecessárias de pessoas, materiais e informação. Os tempos de espera são reduzidos e os erros antecipados e eliminados.

 

Segundo Rothenberg (2004), o sucesso deste método deve-se à simbiose de três fundamentos primordiais: a redução e/ ou eliminação de desperdício, a optimização dos sistemas de produção e a gestão dos recursos humanos.

 

O primeiro fundamento está associado à produção Just in time, que visa a produção daquilo que é estritamente necessário, evitando o excesso de stocks e o desperdício. Para a optimização dos sistemas de produção, destaca-se o princípio da melhoria contínua, ou Kaizen, que promove a responsabilização dos colaboradores para a análise e identificação de possíveis problemas na linha de produção. O terceiro fundamento, a gestão dos recursos humanos, tem uma importância indubitável, na medida em que incide na atenção aos colaboradores, procurando, através da motivação e proximidade, obter bons resultados aos níveis da eficácia e eficiência. Em Portugal, a produção magra tem vindo a ser implementada gradualmente, sobretudo na indústria automóvel, mas já se encontra presente noutros sectores, como é o caso da indústria vidraceira, nomeadamente na Crisal Glass. No que se refere à indústria gráfica, constata-se que algumas gráficas já fazem uso de algumas ferramentas deste método, sem que haja, porém, um conhecimento explícito do mesmo. No entanto, a sua aplicação à indústria gráfica nacional afigura-se como algo incontornável nos próximos anos, para que o sector possa sobreviver e emancipar-se.

 

Cabe agora aos nossos profissionais reflectirem sobre as vantagens que o pensamento lean poderá trazer à sua empresa. Mas a verdade é que o sector terá de estabelecer objectivos a médio prazo para começar a colher os resultados desta filosofia, cujo lema é a “melhoria contínua”, através de técnicas muito simples, mas que o podem tornar competitivo, eficiente e com grande capacidade de vencer a concorrência, abandonando progressivamente a produção em massa.

 

 

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Bibliografia


Cost, F. e Daly, B. (2003). Digital integration and lean manufacturing practices of U.S. printing firms. Rochester Institute of Technology. Printing Industry Center, acedido a 28 de Outubro de 2008, em: http://print.rit.edu/pubs/picrm200309.pdf


Rothenberg, S. e Cost, F. (2004). Lean Manufacturing in Small and Medium Sized Printers. Rochester Institute of Technology. Printing Industry Center, acedido a 28 de Outubro de 2008 em http://print.rit.edu/pubs/picrm200404.pdf

 

Sebrosa, Rui (2008). Modelo de avaliação das condições de aplicação da produção magra. O caso da indústria gráfica. Dissertação de Mestrado.

 


Artigo técnico elaborado no âmbito do Mestrado em Tecnologias Gráficas (ISEC), para a disciplina de «Gestão da Produção Gráfica, Operações e Tecnologias» - Novembro 2008
Por:
Cristina Semedo, Paula Delgado e Susana Neto


 

 

 

 

 

 

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