A aplicação de uma cultura organizacional numa
empresa implica, acima de tudo, implementá-la com as pessoas. Não
basta implementar instrumentos tecnocráticos para fazer uma
organização funcionar. É absolutamente necessário envolver os
colaboradores na missão de melhorar a cadeia de valor do nosso
produto.
O Toyota
Production System (TPS), como precursor da filosofia de Lean
Production tem vindo a ser indicado como a “salvação” das
indústrias. Principalmente, após a crise de 2009.
A Lean Production é o termo criado por Krafcik em 1988 pelo qual
ficou conhecido este modelo de produção (TPS), e que tem sido
amplamente definido ao longo dos últimos anos como sendo a solução
para uma produção com maior valor acrescentado.
Alguns autores têm
identificado o TPS como um modelo de organização orientado para o
Cliente.
Através de uma filosofia de “pull demand”,
as industrias serão mais sensíveis às reais necessidades do Cliente,
ajustando os seus processos produtivos a uma resposta atempada das
mesmas.
Entende-se assim
que o processo produtivo, tanto ao nível dos equipamentos como dos
recursos humanos deva ser ajustado por forma a permitir uma maior
criação de valor do produto fornecido.
Para uma adequação a esta filosofia, a Toyota propôs uma série de
“ferramentas”.
Importar-nos-á, na presente exposição, realçar as que poderão
implicar uma maior resistência no que toca aos recursos humanos,
apresentando as medidas que se poderão preconizar como solução para
essa resistência.
Em
primeiro lugar, a Lean Production procura o que comummente se define
como JIT, ou Just In Time, ou seja, a implementação de uma filosofia
organizacional através da qual a empresa industrial produzirá apenas
o que o Cliente necessita, quando o Cliente o pretende.
O Just In Time aplicar-se-á a toda a cadeia
de produção (ou de criação de valor), desde a encomenda das
matérias-primas, passando pela afectação dos recursos internos da
empresa, terminando na entrega ao Cliente.
Alguns exemplos:
a) A empresa
programará a entrega da matéria-prima para a data precisa da entrada
em produção. Desta forma, a empresa não precisará de armazenar a
matéria-prima, libertando espaço físico;
b) O Departamento
de Impressão apenas imprimirá os cadernos necessários para o
acabamento de 150.000 livros de cada vez, pois esse é o limite do
estrangulamento do sector de acabamentos. Desta forma a empresa terá
menos trabalho em trânsito entre departamentos, optimizando o espaço
e permitindo um nivelamento da produção;
c) O Departamento
de Acabamento apenas aplicará cortante e colará 10.000 capas, num
total de 40.000, pois essa é a quantidade que o Cliente precisa de
momento. Assim, poderá encarregar-se de outros trabalhos e diminuirá
o espaço de armazenagem dedicado ao produto final.
Através do JIT, como se depreenderá,
utilizaremos uma estratégia de “pull production”, ou seja, cada fase
do processo “puxará” da fase imediatamente anterior os recursos
estritamente necessários à sua laboração.
Este instrumento implica, essencialmente, uma consciencialização da
organização para uma programação rigorosa da produção. Não só no que
toca às “chefias” intermédias, mas o operador de máquina deve estar
consciente e formado para a agilização dos processos produtivos e
para a avaliação das necessidades do seu Cliente (interno e
externo).
O sistema de Lean
Production dependerá, também, da eliminação do desperdício.
Compreende-se como desperdício tudo o que
não acrescente valor ao produto, durante a sua produção.
Alguns
exemplos de desperdício são:
a) Excesso de
matérias-primas;
b)
Máquinas paradas;
c)
Colaborador a ver a máquina a trabalhar;
d) Deslocações desnecessárias de produtos;
e) Excesso de produção;
f) Avarias nas máquinas;
g) Desperdício de materiais;
h) Burocracia; etc.
Para
eliminarmos o desperdício, propõe a filosofia do Lean Production que
identifiquemos todas as actividades, materiais e informações que não
são reconhecidas como valor pelo Cliente interno (Departamento) ou
externo (Cliente final).
Depois de identificados, têm que ser tomadas medidas no sentido de
adequar os equipamentos e os recursos humanos para que estes
desperdícios sejam eliminados.
A empresa, ao adoptar medidas para a eliminação do desperdício,
tornará o seu processo produtivo mais rentável, diminuindo o impacto
do custo de desperdícios em recursos humanos e equipamento no preço
praticado ao Cliente.
Com a
adopção destas medidas, tanto industria como Cliente sairão
beneficiados. A empresa torna-se mais competitiva porque diminui os
seus custos de produção e o Cliente conseguirá um produto com melhor
qualidade, mais “verde” e a um preço mais atractivo.
Ao nível dos Recursos Humanos, para a empresa conseguir implementar
medidas de eliminação de desperdício, é essencial a empresa
aplicar-se em duas vertentes:
1. Envolvimento
dos seus colaboradores na identificação do que é desperdício e
métodos e técnicas para a eliminação desse desperdício.
2. Formação de
todos os colaboradores para a noção da cadeia de valor do produto e
como a maximizar.
A
inclusão de todos os colaboradores na identificação do que é
desperdício poderá ser uma excelente forma de os envolver na demanda
da sua eliminação. Os colaboradores são, também, os mais indicados
para sugerir métodos e técnicas de agilização da produção.
Com base nestes inputs dos trabalhadores a empresa deve convidar os
seus colaboradores a partilhar estas sugestões, incentivando a
colaboração de todos num ambiente de formação pró-activa, onde
poderão ser introduzidas novas ideias e sugestões de técnicas,
ampliando a sua base de conhecimentos.
Daqui decorrerá
necessariamente outra ferramenta extremamente importante, a melhoria
contínua dos processos, o que os japoneses chamam de “Kaizen”.
Esta procura pela melhoria contínua atribui uma flexibilidade ao
modelo da Lean Production, permitindo um redesenho dos processos
para se atingir os objectivos traçados pela empresa.
Este talvez seja o
instrumento mais importante, e no qual deve ser feito o maior
investimento nos recursos humanos.
A melhoria contínua implica que os trabalhadores tenham uma
disposição para o seu próprio desenvolvimento pessoal, do qual
decorre um desenvolvimento da organização.
Todos os colaboradores devem ser incentivados a tomar as decisões
que influem directamente no trabalho que fazem. A resolução de
problemas técnicos ou a adequação de equipamentos, deverá ser
deixada ao critério dos próprios trabalhadores.
E é neste chamado “empowerment” que muitos estabelecem a principal
diferença face à produção em massa, ou comummente chamado
Taylorismo.
Mas em que
medida a Lean Production se apresenta como uma ruptura com o modelo
de produção em massa de Taylor?
A resposta a esta questão é dada pelo criador do termo Lean
Production. Krafcik escreve que “muitos dos princípios de Ford são
ainda válidos e formam a própria base do que conhecemos agora por
Toyota Production System” (1988, p. 42).
O próprio Krafcik apresenta a flexibilidade do processo, juntamente
com o consequente “empowerment” dos colaboradores, como principal
diferença do modelo Lean face ao Taylorismo. Mas a pressão sobre os
próprios trabalhadores para um constante aumento da produtividade
continua.
Segundo Womack, a
Lean Production "[…]
assenta numa tensão criativa
[…]" (Womack e
al., 1990).
Os
trabalhadores continuam com a pressão da produção, mas são
influentes sobre o seu ambiente de trabalho, procuram um constante
aumento das suas capacidades com uma aposta da empresa na formação e
apreciam o facto das próprias estruturas dirigentes não serem
relutantes à delegação de responsabilidades.
Desta forma, Womack descreve uma delegação das funções de controlo
para os níveis inferiores da fábrica, libertando os níveis de gestão
para outras actividades, já que se entende que o controlo externo é
pouco eficaz e mais custoso.
O Lean Production assentaria, assim, num compromisso entre a força
de trabalho e a própria administração da empresa, o que supõe a
mudança das suas funções para a tomada de decisões e organização da
produção e do trabalho.
Conclui-se, assim, que o factor essencial para a implementação da
Lean Production são as pessoas.
O desenvolvimento de uma organização implica necessariamente o
envolvimento dos intervenientes nessa mesma organização.
Embora o modelo Lean seja
essencialmente tecnocrático, é importante nunca esquecer a
influência que as pessoas têm no desenrolar da aplicação dos métodos
referidos.
A questão que
devemos colocar é se a aplicação de um modelo como o Lean em
Portugal poderia ser viável atendendo às específicas condições
sócio-demográficas e de formação dos trabalhadores portugueses.
Não bastará envolver as pessoas no processo
de implementação e na execução das ferramentas Lean. É necessária
uma formação intensiva para alteração de uma mentalidade enraizada.
Poderemos resolver esta questão
direccionando o investimento em formação para as pessoas-chave para
o sucesso: a estrutura hierárquica de base.
É na estrutura hierárquica de base que o investimento deve ser
centrado, pois são estes colaboradores os verdadeiros.
Bibliografia
Krafcik, John (1988).
"Triumph of the Lean Production System," in Sloan Management Review;
Womack, James P.; Daniel T.
Jones, e Daniel Roos (1990). “The Machine That Changed the World”.
Artigo técnico elaborado
no âmbito do Mestrado em Tecnologias Gráficas (ISEC),
para a disciplina de «Gestão da Produção Gráfica, Operações e
Tecnologias» - Março de 2010
Por:
Bernardo Drummond Borges